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Os canabinóides e seu cérebro
Qua, 03 de Junho de 2015 17:05

O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente do que a sociedade em sabedoria”
(Matheus Rossignoli, citando Isaac Asimov)


Em reportagem de janeiro de 2014, de um importante veículo jornalístico brasileiro, um cientista afirma que o uso terapêutico da maconha será tão importante quanto foi a penicilina, considerada uma das revoluções da medicina no século XX. Esse mesmo pesquisador afirma que maconha não está relacionada a doenças como esquizofrenia nem traz efeitos prejudiciais à memória. Ou seja, uma matéria que poderia esclarecer os posicionamentos antagonistas em relação ao uso e à legalização da maconha, tanto na medicina quanto para consumo pessoal. Não fosse outro artigo publicado nesse mesmo website, algumas horas depois. Desta vez, era sobre o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o uso da maconha na pesquisa, recomendando cautela, uma vez que seus benefícios e também seus riscos ainda não são muito claros, afirmando, inclusive, a possível relação da planta com efeitos prejudiciais a memória e com o surgimento de doenças como a esquizofrenia. Ou seja, duas matérias, publicadas em um mesmo website com apenas algumas horas de diferença, com declarações antagônicas sobre um mesmo assunto.

Confuso, não? Mas para Matheus Teixeira Rossignoli, doutorando da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, esse polêmico tema não é tão confuso assim: ele estudou durante sua iniciação científica e também durante seu mestrado alguns dos efeitos de substâncias presentes na Cannabis sativa (nome científico da maconha) no organismo. E no encontro do dia 30 de abril de 2015, ele mostrou aos alunos do Adote um Cientista que esse tipo de estudo é tão complexo quanto polêmico.

 

Um saquinho com bolinhas coloridas

A mais antiga farmacopeia conhecida foi escrita na China e já apresentava para quais fins medicinais a maconha era recomendada. Naquela época, já estavam bem descritos os efeitos dessa planta quando ministrada em pessoas, mostrando que já se sabia há muito tempo que a planta modifica o funcionamento do nosso organismo. Porém, foi apenas na década de 60 que foi questionado o que existe de diferente na maconha que é capaz de trazer alterações ao nosso organismo. Atrelada a essa pergunta, vem também a grande questão: afinal, a maconha faz mal?

Por volta dessa mesma época, cientistas descobriram que existem compostos químicos encontrados somente na Cannabis sativa, os canabinóides, sendo que dentre eles até 60% correspondem a uma substância específica, o tetra-hidrocanabidiol (popularmente conhecido como THC); até 30% pelo canabidiol (CBD); e os aproximadamente 10% restantes são formados por outros composto canabinóides. Conforme Matheus explicou, isso implica em uma questão metodológica importante para que estudos com a planta pudessem ser feitos: a maconha contém diferentes substâncias específicas da espécie, e que podem estar relacionadas aos efeitos que ela causa nos seres humanos. Por isso mesmo, falar se a maconha faz mal ou não é o mesmo que tentar determinar a cor de um saquinho que tem bolinhas de diversas cores. Assim como cada bolinha desse saquinho tem sua cor própria, cada substância encontrada na maconha tem seu efeito.

Por isso mesmo, para se estudar os efeitos da maconha, é preciso separar e estudar independentemente cada uma das substâncias que a compõe. Além disso, outro aspecto metodológico importante foi levantado pelo pesquisador: se já se conhecem os efeitos comportamentais há bastante tempo e eles são facilmente observados, então por qual parte do nosso organismo poderíamos iniciar nosso estudo?

 

Matheus: Agora que nós já sabemos o que tem nessa planta, nós conseguimos isolar essas substâncias e estudar cada uma separadamente. Mas vocês teriam alguma ideia de algum experimento que poderíamos montar para perseguir essa pergunta: afinal de contas, faz mal ou não?
Aluno A: Depende da quantidade que você utiliza.
Aluno B: Depende para que as substâncias serão utilizadas.
Aluno C: Talvez devêssemos testar cada substância separadamente. Podemos pegar as substâncias que existem apenas na planta da maconha e testá-las separadamente. E isso não precisa ser feito em seres humanos, pode ser um teste com ratos. E a quantidade utilizada também é importante (...).

 

O sistema nervoso: disparar ou não disparar, eis a questão!

Os efeitos comportamentais, que já são conhecidos há muito tempo, evidenciam a relação entre as substâncias encontrada na planta e o sistema nervoso. Matheus afirmou que os cientistas logo associaram a maconha com o sistema nervoso central (mais especificamente, os pesquisadores pensavam, o córtex cerebral). O neurônio, que é a unidade principal do sistema nervoso, foi a estrutura biológica utilizada nessa investigação.

Formado por uma região central, o corpo celular (onde se encontra o núcleo da célula), de onde saem os dendritos (ramificações que recebem impulsos nervosos de outros neurônios) e também os axônios (que se conectam aos dendritos de outras células nervosas), um único neurônio pode fazer milhares de conexões com outros.

Entre o dendrito de um neurônio e o axônio do outro, há um espaço chamado de fenda sináptica (ou, simplesmente, sinapse). É ali que ocorre a transmissão de informação entre uma célula e a outra e isso se dá, principalmente, pela passagem de neurotransmissores. Um neurotransmissor é liberado na fenda sináptica pelo dendrito e se ligará a receptores presentes na superfície da membrana do axônio. Essa ligação irá desencadear ou não a transmissão do impulso nervoso através do neurônio seguinte, de forma que as conexões interneurais formam uma complexa rede de transmissão ou não transmissão. E é esse padrão de disparar ou não que define todo o nosso comportamento, inclusive enquanto você lê esse texto, aprende sobre neurociência ou tem um sonho fantástico durante a noite.

 

Matheus: Sabendo disso, como vocês acham, então, que a maconha agiria ao alterar o comportamento?
Aluno 1: A maconha altera o receptor.
Aluno 2: Afeta na hora de passar ou não a informação.
Aluno 3: Uniria as sinapses dos neurônios.
Aluno 4: A maconha é capaz de alterar a velocidade das sinapses.
Aluno 5: Talvez ao usar maconha, o neurônio perca a capacidade de transmitir informação.
Matheus: Vocês citaram várias hipóteses que passaram pela cabeça dos pesquisadores na época. Na verdade, várias outras também seriam possíveis. E, por isso mesmo, foi preciso investigá-las!

 

A maconha e o neurônio: THC vs. Canabidiol

A primeira substância a ser investigada foi o THC por ser a mais abundante na planta. Para a espécie, o THC, muito presente na resina da planta, atua em sua defesa, agindo na proteção contra a desidratação e através de sua ação herbicida. Quando observados os efeitos dessa substância nos neurônios (lembre-se que planta não possui neurônios!), verificou-se que o THC altera a sinapse, diminuindo a atividade do neurônio que transmite o sinal.

Por outro lado, quando o canabidiol foi estudado, percebeu-se que ele não diminuía a atividade nos neurônios em que atuava e, além disso, há indícios de que ele anule os efeitos do THC no organismo – o que indicaria que as duas substâncias, ambas encontradas na mesma planta, possuem efeitos opostos em nosso organismo.

 

Aluna: Você disse que o canabidiol não altera os neurônios da mesma maneira que o THC. Mas isso foi testado em outros tipos celulares?
Matheus: Sim. No início, o interesse era grande no sistema nervoso devido aos efeitos comportamentais bastante conhecidos. Mas, é claro, depois disso começaram a expandir os estudos para outros sistemas e tipos celulares. A gente sabe que nossos sistemas funcionam de maneira integrada. Hoje se sabe da influência dessas substâncias no processo inflamatório, na digestão... E isso explica o potencial terapêutico que aquela enciclopédia antiga da China indicava. A gente está discutindo especificamente o sistema nervoso hoje, mas há sim outros muitos efeitos no organismo como um todo.

 

Além disso, cientistas descobriram que existem receptores no nosso organismo que respondem à presença dessas substâncias determinando se haverá disparo do neurônio ou não. Essa, segundo Matheus, é uma questão bastante interessante, uma vez que não há indícios de que tenha ocorrido um processo de coevolução entre a maconha e o ser humano (em outras palavras, ele não é um receptor cuja função é se ligar a nenhuma dessas substâncias, mas essas substâncias podem se ligar a ele), indicando que esse receptor possui uma função endógena, ou seja, está relacionado a algum mecanismo do nosso próprio sistema nervoso. Isso não é incomum, e já foi verificado em outros casos, como receptores da nicotina e do ópio com substâncias produzidas pelo nosso organismo que se assemelham a essas substancias encontradas em plantas.

Nesse sentido, é importante frisar que tanto o THC quanto o canabidiol possuem funções importantes para a Canabis sativa e que se elas são capazes de causar alterações no nosso organismo é porque possuímos mecanismos capazes de responder a elas (como os receptores já mencionados), embora eles não tenham essa função em nosso organismo.

 

Aluno: A maconha tem o mesmo efeito em outros animais?
Matheus: O efeito é bem parecido em animais que possuam um sistema nervoso semelhante ao nosso. Só que, da mesma forma que existem características em comum, há também peculiaridades da nossa espécie. Nós sabemos que a maconha pode causar alucinações, mas como saber se isso também ocorre em outros animais? Porque não tem como se investigar isso... Mas, apesar das peculiaridades, de maneira geral, os efeitos são bem parecidos.

 

Os efeitos no sistema nervoso

Quando questionado por um aluno se a maconha mata neurônios, Matheus afirmou que essa é uma questão complicada. Ele contou que, inicialmente, foi feito um estudo com primatas não-humanos no qual esses animais usavam uma máscara que os fazia inalar fumaça produzida pela queima de substâncias da maconha. Nesse estudo, verificou-se que havia, sim, morte de células nervosas, mas esses resultados foram questionados posteriormente: o método utilizado produzia asfixia e se sabe que a falta de oxigênio pode matar os neurônios, de forma que não é possível se dizer se a morte dessas células foi devido às substâncias da maconha ou à asfixia. Em outros estudos, em cultivo celular, observou-se morte neuronal quando ministrada certa quantidade de THC; além disso, algumas pesquisas indicam que o consumo pode alterar o volume cerebral (indicando possível morte de células), porém isso ainda deve ser verificado (por exemplo, por quanto tempo os pacientes utilizaram a droga para ter mudança de volume cerebral? Será que esses indivíduos consumiram a mesma quantidade de THC? Essas alterações podem ser revertidas? Todas essas questões não foram ainda completamente elucidadas).

Matheus também contou outros efeitos da maconha no organismo. Verificou-se que o THC altera a memória de curto prazo; em estudos com memória de longo prazo, verificaram-se tanto danos reversíveis quanto irreversíveis, de forma que ainda não se sabe qual a quantidade necessária para que isso ocorra, nem o tempo de exposição à substância.

Como seus efeitos comportamentais se assemelham bastante ao transtorno psiquiátrico conhecido como esquizofrenia, também se investiga se o THC está relacionado ao desenvolvimento da doença. E já se sabe que o consumo na adolescência pode aumentar de 2 a 3 vezes a chance de se desenvolver esse quadro. Por outro lado, também se verificou que o canabidiol possui efeito oposto e pode ser uma substância utilizada no tratamento de esquizofrenia. O uso do canabidiol também foi responsável pela diminuição de crises epilépticas em alguns casos.

Além de uma possível relação com a depressão, Matheus contou que os efeitos da maconha são mais perigosos durante a adolescência, uma vez que nessa fase o cérebro ainda está em formação, de tal forma que possui mais receptores para o THC do que em idades mais avançadas.

 

Aluna: Você disse que já foram testados tratamentos com o canabidiol em pacientes com epilepsia e esquizofrenia. Como é ministrada a substância?
Matheus: Após o processo de separação e isolamento da substância, se eu não me engano, existem trabalhos nos quais a substância é injetada e em outros trabalhos são utilizadas cápsulas para ser tomadas oralmente, com a substância cristalizada. Mas, acredito, o mais comum é a aplicação intravenosa.

 

Afinal, faz mal ou não?

Matheus afirmou que a maconha, como um todo, possui efeitos prejudiciais à saúde sim. Principalmente por causa do THC, substância presente em maior concentração na planta, seu uso pode trazer efeitos de curto e longo prazo que podem fazer mal ao indivíduo. Além disso, ele frisou que há uma grande diferença entre se discutir os efeitos do consumo da maconha, uma droga que é ilegal no nosso país, e discutir o efeito de substâncias presentes nessa planta em laboratório, para fins de investigação científica e de possível uso terapêutico.

Nesse aspecto, embora o THC possua alguns efeitos danosos, o canabidiol pode representar boas possibilidades de se desenvolver tratamentos para algumas doenças, tais como a esquizofrenia e a epilepsia. Quando um dos alunos questionou se é possível manipular a planta para que ela tenha maior quantidade de canabidiol e menor de THC, Matheus contou que isso é, inclusive, uma realidade. Ele disse que em alguns lugares, como nos Estados Unidos, já são cultivadas Cannabis sativa que possuem uma quantidade de canabidiol elevada. Ele contou, porém, que embora essa seja uma alternativa terapêutica mais barata do que a produção de fármacos, o fumo (mesmo de uma planta com menor concentração de THC) nunca é recomendado já que, por si só, é uma prática bastante danosa ao organismo.

Ao fim de sua fala, o pesquisador foi bastante honesto com os alunos do programa ao dizer que a resposta para essa pergunta bastante polêmica não é simples. Ficou claro que o consumo dessa planta (principalmente o fumo) é bastante prejudicial, mas ao mesmo tempo, é uma planta que produz substâncias que podem trazer muitos benefícios terapêuticos se corretamente aproveitadas, embora nem isso esteja muito claro ainda.

De fato, o melhor é não fugir da polêmica, bastante pertinente e presente em nosso cotidiano, tomando cuidado para não cair em falácias e não se confundir com situações como a de janeiro de 2014, quando um mesmo website publicou duas notícias totalmente contraditórias, mais confundindo do que informando o leitor.

 


 

Matheus Rossignoli recomendou para quem quiser saber mais sobre o assunto, um livro escrito por pesquisadores de Ribeirão Preto sobre o tema. A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) possui pesquisadores que são referência na área e de importância global para estudos com canabidiol.
ZUARDI, A. W.; CRIPPA, J. A. S.; GUIMARÃES, F. S.; COLABORADORES. Cannabis e Saúde Mental: Uma Revisão sobre a droga de abuso e o medicamento. 1° Edição. São Paulo: FUNPEC - Editora, 2008.


Espaço dos alunos

 A partir da análise das filipetas do encontro, a equipe da Casa da Ciência produziu este infográfico destacando as principais dúvidas manifestadas pelos alunos e os principais conceitos aprendidos no encontro. A finalidade deste instrumento é a avaliação dos momentos de aprendizagem do aluno e valorização da sua dúvida.


Texto

Autoria: Vinicius Anelli

Edição: Ms. Matheus Teixeira Rossignoli

Revisão: Profa. Dra. Marisa Ramos Barbieri e Gisele Oliveira

 

Video

Edição: Roberto Sanchez

Revisão: Ms. Matheus Teixeira Rossignoli

 

Espaço dos alunos

Análise de filipetas: Luciana Silva

Infográfico: Vinicius Anelli

 

Diagramação

Vinicius Anelli

 

Saiba mais sobre a proposta em http://goo.gl/brHCph

 

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