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Os parasitas e o homem
Seg, 02 de Março de 2015 17:12

“Jeca-tatu não é assim. Ele está assim”

 

Na tarde do dia 13 de novembro, o pesquisador Everton Brito de Oliveira Costa trouxe aos alunos do Adote um Cientista uma das interações ecológicas mais relevantes para a qualidade de vida dos seres humanos. Formado em Biomedicina e parceiro da Casa desde 2009, Everton iniciou o encontro perguntando aos alunos se eles sabiam o que é um parasita. “Parasita é um ser que se beneficia de outro”, respondeu um dos alunos. “Mas por que ele precisa se beneficiar de outro?”, continuou o pesquisador. “Por que sem o hospedeiro o parasita não consegue sobreviver”, respondeu o aluno.

Na verdade, o parasita consegue sobreviver fora do hospedeiro, porém apenas em contato com este o parasita irá se proliferar. Everton deu como exemplo os parasitas do solo cujo hospedeiro é o homem: enquanto no solo, esses organismos desenvolvem estruturas para que possam sobreviver no ambiente desfavorável, mas é apenas em contato com o homem que eles são capazes de se reproduzir.

O parasitismo é uma associação entre seres vivos com unilateralidade de benefício, ou seja, o organismo hospedeiro oferecerá condições propícias para o parasita (alimento e proteção), de forma que apenas o parasita se beneficiará dessa interação. Por isso, o parasitismo é uma relação que tende ao equilíbrio, uma vez que o parasita necessita do hospedeiro vivo para sobreviver. “Mas, então”, questionou Everton, “por que alguns parasitas causam doenças?”. “Porque o parasita retira nutrientes do hospedeiro”, afirmou uma das alunas.

O pesquisador explicou que, de fato, alguns indivíduos infectados com parasitas não apresentam sintomas (sendo chamados de indivíduos assintomáticos), enquanto outros apresentam (indivíduos sintomáticos). Isso se deve à retirada de recursos do hospedeiro, que pode acabar gerando uma série de problemas para o organismo infectado. Algumas doenças causadas por parasitas ocorrem através de vetores, que são organismos que podem estar infectados com o parasita e que serão responsáveis por transmiti-lo ao hospedeiro final. O hospedeiro final é aquele que, uma vez infectado, poderá apresentar os sintomas.

Alterações no meio ambiente, alta concentração populacional e baixas condições de higiene básica e alimentar contribuem para que o número de pessoas com doenças graves causadas por esses organismos aumente. Isso ocorre uma vez que essas condições favorecem a multiplicação dos parasitas e dos vetores e tornam o hospedeiro mais suscetível à infecção. A parasitologia, ramo da ciência que estuda essa relação entre parasitas e seres humanos, classifica as parasitoses em dois tipos - protozooses e helmintoses – de acordo com os organismos que as provocam.

 

Amebíase e giardíase: duas protozooses

Protozooses são doenças causadas por protozoários, que são organismos unicelulares pertencentes ao reino Protista. Mais de 60 mil espécies são conhecidas, sendo que dessas, cerca de 10 mil espécies causam doenças em diversos animais e algumas centenas delas acometem os seres humanos. Muitos protozoários possuem especializações de membrana, tais como cílios e flagelos, que podem auxiliar na locomoção, nutrição e também atuando como fatores de virulência. Fatores de virulência são fatores que ajudam a promover a infecção, auxiliando na capacidade infecciosa do parasita, o que demonstra uma adaptação de alguns grupos facilitando o estabelecimento do parasitismo. São conhecidas diversas protozooses, sendo a amebíase e a giardíase duas das mais importantes.

A amebíase, ou disenteria amebiana, é causada pela Entamoeba hystolitica, um protozoário ameboide. Estima-se que 12% da população mundial é portadora desse protozoário, porém apenas 10 a 20% desses portadores apresentam sintomas da infecção – dentre eles, diarreia, infecções extra-intestinais, etc. – sendo responsável por cerca de 100 mil óbitos por ano. A doença é transmitida por via oral-fecal, com o protozoário sendo eliminado pelas fezes e podendo infectar água ou alimentos.

 

Aluno: Mas não é porque o portador é assintomático que ele não deixa de passar a doença, né?
Everton: Exato. Ele pode não manifestar a doença, mas ele pode transmitir para outras pessoas o parasita. Isso está muito associado ao estado imunológico da pessoa.

 

 

A doença seguinte apresentada por Everton foi a giardíase. Causada por um protozoário flagelado, Giardia lamblia, é uma doença distribuída por todo o planeta e que causa gastroenterite e duodenite – infecções do estômago e do duodeno. 50% dos infectados são sintomáticos, sendo muito comum em crianças e estando associada à falta de higiene. Um dos principais sintomas da doença é uma dor de barriga forte, o que, muitas vezes, confunde o seu diagnóstico. Isso pode levar a um tratamento ineficaz da doença, o que pode aumentar sua transmissão e prejudicar o paciente. Seu ciclo de vida, assim como o da amebíase, também é oral-fecal.

 

 

As Helmintoses e o Jeca-Tatu

Helmintoses são parasitoses causadas por organismos pertencentes a dois grupos de animais: os platelmintos (vermes achatados com tubo digestivo ausente ou rudimentar) e os nematelmintos (que são vermes cilíndricos com tubo digestivo presente). Anelídeos, o grupo das minhocas e centopeias, também fazem parte dos Helmintos, porém não causam doenças ao ser humano. Grande parte dos helmintos é de vida livre, enquanto alguns são parasitas. Helmintoses são doenças que afetam o equilíbrio nutricional do hospedeiro, comprometendo a absorção de nutrientes, podendo induzir sangramento intestinal, obstrução intestinal e outros sintomas associados ao trato digestório. Por afetarem o equilíbrio nutricional do hospedeiro, interferem no desenvolvimento infantil, podendo estar associadas ao baixo rendimento escolar em crianças e adolescentes e baixa produtividade em adultos gerando, dentre outros sintomas, cansaço e desânimo.

 

Aluna: Essas doenças também podem ser assintomáticas, as causadas por helmintos?
Everton: Normalmente, quando você tem uma infecção por verme, a pessoa costuma manifestar a doença. Protozooses são mais comumente assintomáticas do que helmintoses. Isso porque a presença do verme está associada a anemias e desequilíbrios nutricionais, o que torna essas doenças mais observáveis do que as causadas por protozoários.
Aluna: Mas, assim, quando é assintomática significa que ele não está tirando nutrientes do hospedeiro?
Everton: Ele tira. Depende muito do que a gente chama de inócuo, que é a quantidade de parasita que você tem. O problema é quando ocorre uma infestação, quando há uma quantidade muito grande de parasitas. Você tem que se lembrar de que o parasita demanda nutrientes do hospedeiro. Quando há uma infestação, portanto, isso afeta o equilíbrio parasita-hospedeiro.

 

Um exemplo de helmintose trazido por um dos alunos foi a teníase. Causada pela tênia (ou, popularmente, solitária), essa doença se dá pela ingestão de carne de porco ou de boi infectada com larvas desse platelminto. Essas larvas se desenvolvem no organismo do hospedeiro e, já adultas, se hospedam no intestino delgado. Quando uma pessoa ingere, acidentalmente, ovos de tênia em água ou alimentos infectados, ela adquire uma doença diferente: a cisticercose. No caso da cisticercose, ao contrário da teníase, o platelminto não atinge a maturidade no hospedeiro, de forma que suas larvas se alojam em diferentes tecidos do indivíduo infectado. Um quadro grave da doença é a neurocisticercose, na qual as larvas de tênia se hospedam no tecido nervoso do hospedeiro. Isso mostra dois ciclos de vida distintos para um mesmo parasita: no caso da teníase, o homem exerce o papel de hospedeiro final, uma vez que a forma de infecção possibilita que o ciclo de vida completa do helminto ocorra; já na cisticercose, na qual o platelminto é adquirido em forma de ovo, o homem funciona como hospedeiro intermediário, de forma que apenas o estágio larval será atingido. Esses papeis distintos do homem no ciclo de vida do parasita determinam diferentes quadros clínicos, ambos podendo ser causados pelo mesmo organismo.
Uma helmintose importante é a Ancilostomíase, popularmente conhecida como Amarelão. A doença é causada pelos vermes Ancylostoma duodenale e Necator americanus, que diferem em sua distribuição: o primeiro é mais comum na região do Mediterrâneo, Índia, China e Japão enquanto o segundo ocorre na África, partes da Ásia e no continente americano.

 

Aluna: Qual é mais?
Everton: Você diz em termos de qual contamina mais que o outro? Aqui no Brasil, a chance de eu me contaminar com o Ancylostoma é baixa porque ele não é natural dessa região. Agora se você diz em relação à doença, eles são bem parecidos. Mas, por exemplo, o Ancylostoma possui estruturas que fazem com que ele se prenda mais fortemente ao hospedeiro do que o Necator. Então a virulência, ou seja, a capacidade de infectar dele é maior.

 

Devido ao seu ciclo, o Amarelão, geralmente, é contraído por pessoas que andam descalças em regiões contaminadas. Isso ocorre porque as larvas do parasita penetram na pele do pé e entram na circulação sanguínea do hospedeiro, infectando-o. A doença ficou imortalizada na literatura através do personagem Jeca-tatu, de Monteiro Lobato, um trabalhador rural que estava sempre cansado e tinha o hábito de andar descalço. Tido como um vagabundo pelas outras pessoas, bastou uma consulta com o médico para que Jeca descobrisse que tinha amarelão, sendo sua indisposição e preguiça consequências da doença. Já a Ascaridíase, provocada pelo parasita Ascaris lumbricoides, é outra helmintose que acomete 30% da população mundial, principalmente crianças de até 10 anos. Também conhecida como lombriga, a doença também está associada à falta de higiene – algo muito comum em crianças pequenas, que adoram pegar coisas do chão e levar à boca.

 

Aluno: Pode um parasita transmitir duas doenças diferentes?
Everton: Depende do que você chama de doença. Existe doença e manifestação clínica. Por exemplo, um parasita pode causar diarreia, mas também pode causar outras complicações. É a mesma doença. Mas há o caso da teníase, também. Dependendo da forma que você contrai o parasita, pode causar teníase ou cisticercose.

 

Helmintoses são tratadas, geralmente, com vermífugos. Quando questionados, os alunos disseram que uma forma de tratar a infecção por parasitas seria impedir que o verme absorvesse nutrientes do hospedeiro. Outro aspecto trazido ao fim da apresentação foi a possibilidade de que um indivíduo infectado por uma espécie de parasita também estivesse infectado por outras. Isso é possível, uma vez que essas doenças ocorrem devido à falta de higiene e de hábitos saudáveis, de forma que pessoas com essas práticas se tornam mais suscetíveis às infecções.
De fato, quando Monteiro Lobato escreveu o conto de Jeca-Tatu, sobre um caboclo preguiçoso que, na verdade, tinha amarelão, ele fazia uma crítica social às condições de vida do brasileiro. Em 1918, quando as condições sanitárias na maior parte do país eram precárias, era de se esperar que doenças como o amarelão e lombriga fossem bastante comuns na população. Mesmo com todos os avanços, quase um século depois, essas doenças ainda possuem grande incidência em muitas partes do Brasil e do mundo. Jecas-Tatus do século XXI, frutos da falta de saneamento básico em algumas regiões e, principalmente, de investimento em conscientização e educação...

 


 Espaço dos alunos

 A partir da análise das filipetas do encontro, a equipe da Casa da Ciência produziu este infográfico destacando as principais dúvidas manifestadas pelos alunos e os principais conceitos aprendidos no encontro. A finalidade deste instrumento é a avaliação dos momentos de aprendizagem do aluno e valorização da sua dúvida.

  


Texto

Autoria: Vinicius Anelli

Revisão: Profa. Dra. Marisa Ramos Barbieri e Gisele Oliveira

 

Espaço dos alunos

Análise de filipetas: Luciana Silva

Infográfico: Vinicius Anelli

 

Diagramação

Vinicius Anelli

 

Saiba mais sobre a proposta em http://goo.gl/brHCph

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